O CONHECIMENTO HISTÓRICO ATRAVÉS DO CINEMA




Artigo aprovado para participação no VI JÓIA  - 2016
(Jornada de Integração Acadêmica)

Eduardo Peixoto, Rogério dos Santos e Sandro Job
Orientador: Prof. Dr. Gilmar Ferreira de Moraes
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Licenciatura em História 
25/06/2015


RESUMO

O presente artigo tem por objetivo verificar a viabilidade do cinema ser interpretado como uma fonte de investigação histórica e prática pedagógica. A metodologia utilizada neste trabalho foi a pesquisa documental e a pesquisa bilbliográfica. Como resultado destas, foi constatado que o cinema é definitivamente aceito como fonte histórica a partir dos anos 70, com o desenvolvimento da Escola dos Annales ( França). Esta concepção do cinema, como ferramenta para reconstituição histórica, foi fundamental para sua utilização como importante linguagem pedagógica em sala de aula.


Palavras-chaves:Cinema. Fonte Histórica. Aplicação Pedagógica.


1 INTRODUÇÃO

Desde os primórdios da humanidade o ser  humano preocupa-se com a captura do movimento.Dessa preocupação constante surgiram alguns inventos capazes de capturar e simular o movimento das imagens estáticas. Um destes inventos é o que veio a ser chamado de Cinema.
É de ressaltar-se a estreita relação que existe entre o cinema e a história.O filme, desde há muito, passou a ser encarado enquanto testemunho da sociedade que o produziu, como um reflexo das ideologias, dos costumes e das mentalidades coletivas. A História está presente no cinema de diversas maneiras e pode ser abordada por vários ângulos. Hoje, isto é uma realidade. Portanto, é de suma importância para a sociedade atual e, principalmente para os historiadores e professores, aprenderem as possibilidades  de  utilizar essa belíssima ferramenta que herdamos da história da humanidade. 
Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico e informatizado, que utiliza em todos os seus setores, inclusive no da educação, as mais diversas ferramentas para o repasse do conhecimento. O vídeo é utilizado, quase que diariamente, por grande parte de nossa sociedade. Cabe ao professor  e ao historiador não viverem alheios a esta realidade.Este estudo vêm proporcionar, ao leitor, com base nos autores pesquisados,  uma noção da importância e das possibilidades do uso do cinema no ensino da História em sala de aula.
É importante ressaltar que o tema é muito vasto e que, relacionaremos as principais descobertas que nos levaram a invenção do cinema, propriamente dito, em 1895. Após, manteremos nosso estudo nas resoluções tomadas pelos historiadores e autoridades no assunto a partir do ano de 1970 até 1998,  quando o Ministério da Educação divulgou os Parâmetros Curriculares Nacionais,fazendo  menção  à utilização de filmes no ensino de história.
Assim, o objetivo geral desse estudo se dá na contextualização e descrição das descobertas que culminaram na invenção do cinema,  tendo como objetivos específicos, o impacto deste invento no mundo,  bem como a utilização desta invenção magnífica como ferramenta de trabalho aos educadores da atualidade.
 Em um primeiro momento introduzimos um breve relato do surgimento do cinema em nossa história. Logo após explanamos sobre as relações existentes entre a História e o cinema; após, um pequeno estudo do filme como documento de investigação histórica, encerrando com a possibilidade de utilizar o cinema em sala de aula.


2 HISTÓRIA DO CINEMA

Segundo Pessanha (2010) para falar de “Criação do Cinema” é necessário   mencionar o desejo que a humanidade sempre possuiu  de capturar o movimento e, também, explicar um pouco das descobertas que tornaram possível gravar cenas estáticas que, posteriormente, com a ajuda das invenções que sucederam, propiciaram ao homem do passado inventar o Cinema. A “grande atriz desta produção” foi a descoberta da Câmera Obscura,  que propiciou a invenção da fotografia. Mas o que tem a ver fotografia com cinema? Vídeo é imagem em movimento! E, não poderemos deixar de dizer que  o vídeo não existiria se a ciência não houvesse descoberto a Persistência Retiniana, o fenômeno que nos possibilita perceber movimentos. Seria muito falho escrever sobre a criação do cinema sem fazer um breve relato sobre a  revelação e a invenção do filme fotográfico, pois sem essas duas situações, não teriam sido inventados as primeiras “filmadoras”.
Desde as Sociedades Ágrafas o homem interessou-se por registrar e capturar o movimento, uma prova disto são as pinturas nas paredes das cavernas. Em 1878 foi descoberta a Caverna de Altamira, na Espanha, datada do último período Neolítico e, nela encontramos, pintadas nas paredes internas, várias imagens que nos  sugerem movimento (PESSANHA, 2010).

O mesmo autor, Pessanha (2010), nos relata que, por volta de 5.000 a.C., surge, na China, o Teatro de Sombras.É a projeção, sobre paredes ou telas de linho, de figuras humanas, animais ou objetos recortados e manipulados. O operador narrava a ação, quase sempre envolvendo príncipes, guerreiros e dragões. São inúmeras as provas arqueológicas de que o homem jamais deixou de interessar-se pela fixação gráfica de suas atividades do movimento. Nas escavações realizadas no palácio de Knossos, na antiga Grécia, que floresceu no século XXI antes da nossa era, encontramos uma interessante peça de cerâmica, que, quase em uma história em quadrinhos, nos conta a história de Teseu, que desafiou e matou o Minotauro. De acordo com Pessanha (2010), “Em Roma encontramos a Coluna Trajana, possuindo, aproximadamente, 38 metros de altura. No decorrer dela, existem gravuras contando a  guerra contra os Dácios. É, talvez, a história em quadrinhos mais famosa da história.”
                  Na Inglaterra encontramos a Tapeçaria de Bayeux, Criada entre 1070-1080 da nossa era. Constituída de 69 metros de comprimento, cerca de 50 cm de largura e 58 cenas, narra a história da conquista normanda da Inglaterra em 1066 (sob o ponto de vista normando), e representa magnificamente muitas cenas da vida cotidiana nobre do final do século XI, além da derrota anglo-saxã das forças de Haroldo II, rei da Inglaterra (1066) na batalha de Hastings.  Historiadores da Arte definem essa tapeçaria como a primeira História em quadrinhos. Esses são somente algumas provas  que estão espalhadas pelo mundo  de que a captura do movimento sempre foi uma constante na história dos seres humanos, e, poderíamos continuar relatando inúmeras obras, sem fim, sobre este aspecto. (COSTA, 2015)
Um dos autores pesquisados, Andrade (2014), relata que foi, ainda no século V a.C,que um filósofo chinês chamado Mo Ti, descobriu que a luz propagava-se em linha reta. Ele foi o primeiro a constatar que a luz refletida de um objeto formava uma imagem invertida sobre um plano ao atravessar um orifício. No século IV a.C, na Grécia,  que Aristóteles, (384 a.C. – 322 a.C),  compreendeu o princípio óptico da câmera escura ao observar um eclipse parcial através de um cesto de vime trançado:  quanto menor fosse o orifício, mais nítida era a imagem.
                  Mais tarde, em 965 – 1039 d.C, o estudioso islâmico e cientista Abu Ali al-Hasan fez um relato completo do princípio da Câmara Escura incluindo experimentos com cinco lanternas de fora de uma sala com um pequeno buraco. Posteriormente, em 1490, Leonardo da Vinci deu duas descrições claras da câmara obscura em seus cadernos e do uso que fazia dela em seus desenhos.  Em 1550, o físico milanês Girolamo Cardano, sugere o uso de uma lente biconvexa junto ao orifício, permitindo uma imagem clara sem perder a nitidez. Dessa forma, nos meados do século XVI a estrutura física rudimentar da máquina fotográfica atual já era conhecida. (ANDRADE, 2014)

              Com a divulgação da tecnologia desta câmara, logo surgiram vários aparelhos que a tinham como  base. Em 1645, surge a Lanterna Mágica pelas mãos do sacerdote jesuíta Athanasius Kircher, constituída por uma câmera escura com jogo de lentes.  Após, em 1727,  o médico alemão Johann Schulze descobre que a luz incidindo sobre frascos contendo sais de prata é capaz de enegrecer as substâncias nele contidas... estava dado o primeiro passo para a descoberta da fixação da imagem!  Desta forma,  em 1790,  Thomas Wedgwood tenta realizar a primeira fotografia, através de um pedaço de papel impregnado de nitrato de prata. Wedgewood foi o primeiro a obter um negativo fotográfico rudimentar.(ANDRADE, 2014)
               Seguindo nossa “linha do tempo”, em 1825, o físico londrino, Dr. John Ayrton, com a finalidade de  demonstrar o fenômeno de persistência retiniana, cria o Taumatroscópio.  Trata-se de um disco com uma imagem em cada face,  preso por dois fios que, ao ser girado pelos fios provocava a impressão de que as imagens misturavam-se,  “transformando-as” em  apenas uma. Quanto mais rápido girava-se o disco maior era a sensação ótica. (JUNIOR, 2005)
Segundo artigo científico publicado na UFES (2009):

Em 1830, o físico belga  Joseph-Antoine Plateau  mede,  pela primeira vez,  o tempo da Persistência Retiniana, que consiste na capacidade que a retina possui de continuar mandando informações ao cérebro, por aproximadamente 1/10 de segundo após o último estímulo luminoso. Por este motivo, se uma imagem for trocada numa velocidade maior do que esta, elas tendem a fundir-se no cérebro, provocando a sensação de movimento contínuo.  Este foi o princípio científico que permitiu que diversos aparelhos de reprodução de imagens em movimento pudessem ser desenvolvidos. Com o advento da Persistência Retiniana iniciou-se uma produção de diversos “brinquedos óticos”, assim chamados na época, e em 1832, Joseph Antoine Plateau  inventa o Fenacistoscópio  - que consiste num disco preso pelo centro com um arame ou uma agulha grossa de forma a poder-se fazê-lo girar rapidamente. Nas extremidades do disco, e entre as ranhuras, eram desenhadas 16 figuras em posições diferentes, mas sequenciais. O observador só tinha de segurar o disco em frente a um espelho com as imagens voltadas para este. Olhando através das ranhuras e girando o disco, as figuras adquirem movimento, era então possível obter uma sequência de imagens animadas. Usando o mesmo princípio, em 1834,  William George Horner  cria o  Zootroscópio.

                 No ano de 1839  surge outro invento: o Daguerreótipo. Louis Jacques Mandé Daguerre apresenta à Academia Francesa de Ciência, em Paris, um aparelho formado por uma caixa preta, na qual era colocada uma chapa de cobre prateada e polida que, submetida a vapores de iodo, formava sobre si uma camada de iodeto de prata. Essa placa era exposta à luz dentro de uma câmara escura por 4 a 10 minutos. Depois, era revelada em vapor de mercúrio aquecido, que aderia ao material nas partes onde ele havia sido sensibilizado pela luz, formando a imagem. Era a imagem revelada e gravada! (JUNIOR, 2005)

Na década de 1870, o fotógrafo britânico Eadweard Muybridge (1830-1904) fez experimentos que ficaram para a história da fotografia, do cinema – e das ciências. Com o intuito de captar o movimento, o fotógrafo fazia várias imagens de um mesmo objeto com dezenas de câmeras, de diversos ângulos. Extremamente inovador para a época, Muybridge desenvolveu conceitos fundantes para o cinema e o stop motion (animação que utiliza centenas de fotografias, quadro a quadro). As fotografias de Muybridge revelaram, como nunca antes, o movimento dos corpos de pessoas e animais. A sequência mais famosa, realizada com mais de vinte câmeras e diante da imprensa, mostra um cavalo galopando. Muybridge provou que o animal ficava com as quatro patas fora do chão enquanto corria. Isto foi em 1877. (BELÉM, 2011)

                 Então, o ser humano já havia descoberto como capturar, gravar e dar movimento a uma imagem. Vários inventos já haviam surgido, porém, para o cinema finalmente tornar-se presente,  faltavam duas peças importantes: como gravar imagens em uma superfície que fosse prática para ser transportada e reproduzida, bem como as projetar. Faltavam ainda, o filme fotográfico e o projetor. É claro, faltava também a mente brilhante que uniria todas essas criações que já existiam em um único mecanismo. É o que nos relata Barbosa Júnior (2005), no trecho a seguir:

No ano de 1861,  Alexander Parkes inventa o celulóide, material que serviria de matéria-prima para a elaboração da futura película fotográfica. E, em 1888,  John Carbutt, um fotógrafo inglês, que havia imigrado para a América, convenceu  a um fabricante de celulóide a produzir folhas suficientemente finas para receber uma emulsão de gelatina embebida nas substâncias químicas necessárias para a reação fotográfica. A ideia era produzir um filme, leve, que pudesse servir de base para a revelação da imagem. A partir desta criação, em 1888,  George Eastman  desenvolve o  Filme Fotográfico,   e  Funda a Eastman Kodak Company , começando a comercializar a Câmera Kodak nº 1 ,  tornando a  fotografia acessível  à elite. A nova câmera podia ser transportada para qualquer lugar com facilidade. Estava criado aquilo que viria a ser a peça que faltava para a captação da imagem em um futuro equipamento de filmagem.

   Na sequência, no ano de 1890 surge, pela obra de Thomas Edison,  o Cinetoscópio. Consistia em uma caixa com um sistema de engrenagem para uma tira de 15m de película de celulóide. O Cinetoscópio de Edison, patenteado em 1891, permitia a observação das imagens em movimento, a uma velocidade de 48 fps (quadros por segundo) através de um orifício. O detalhe é que, neste aparelho, apenas uma pessoa podia assistir ao filme.  A largura do seu filme de 35mm passou a ser considerada padrão internacional. As primeiras sessões duravam em torno de dez a quinze minutos e reproduziam curtas, com no máximo um minuto, com artistas e atletas. Em 1894, Edison associa o Cinetoscópio com o Fonógrafo e cria o Cinefone, projetando os primeiros filmes sonoros da história. (ALMEIDA, 2012)
De acordo com Santoro (2007), ainda em 1890, do “outro lado do mundo”, na França, os irmãos Auguste e Louis Lumière inventam o seu  Cinematógrafo. O nome significa: “Registro de movimento”. O aparelho   era a combinação de todos os inventos anteriores. Uma câmera escura com lente, para captação da imagem; um filme fotográfico para gravar a imagem;  uma “lanterna mágica” para projetar a imagem em uma tela externa. O cinematógrafo gravava e capturava a uma velocidade de 16 quadros por segundo (16 fps), pois, de acordo com a descoberta de Joseph-Antoine Plateau, da Persistência Retiniana, desde 1/10 de segundo de exposição, qualquer velocidade já seria suficiente para dar impressão de movimento, porém, quanto mais rápida fosse a captação, melhor seria a qualidade do movimento.  Na captação, a troca rápida permitia obter um filme com as sucessivas partes de um movimento congeladas, e na projeção, essas partes eram vistas como um contínuo movimento.   A cada uma destas partes ou gravuras deu-se o nome de Fotograma.
 Em 28 de dezembro de 1895 nasce oficialmente a “Sétima Arte” ,  com a primeira sessão pública de Cinema, abreviatura de Cinematógrafo,  projetada pelos irmãos Lumière no Grand Café, no Boulevard de Capucines, em Paris. Foram reproduzidos filmes em uma sessão de 20 minutos. Segundo os Lumière, seu invento não possuía possibilidades comerciais e servia apenas para diversão. Eles rodavam pequenos filmes documentários. O primeiro filme apresentado pelos irmãos foi “A saída dos operários da Fábrica Lumière”, de apenas  um minuto de duração.(SANTORO, 2007)

3 AS RELAÇÕES EXISTENTES ENTRE A HISTÓRIA E O CINEMA

Como demonstra, um dos autores estudados, depois que os irmãos Lumière inventaram o cinema,  há um século, é possível que eles tenham pensado que este engenho viesse a se tornar objeto de especial atenção de historiadores e outros pesquisadores das ciências humanas. É até possível que tenham pensado que a produção de imagens exibidas numa tela viesse a ter a sua cronologia registrada pelo historiador, mas com muita dificuldade imaginariam que o cinema fosse adquirir uma importância tão grande para a história e para os historiadores a ponto destes cunharem a expressão cinema-história. Os historiadores, por sua vez, na época da fundação do cinema, estavam mergulhados na concepção positivista atualizada na França por Langlois e Seignobo, para qual a “a história só se fazia com documentos”. (NÓVOA, 2015)

O documento, para mentalidade de então, era sobre tudo o que estava escrito, ponto de partida e de chegada para a reconstrução do fato histórico. Eles foram incapazes de mudar suas concepções, não somente no que concerne a história, mas também a documentação. Alguns conceitos fundamentais acerca da relação história/cinema  não podem ser ignorados pelo historiador ou por qualquer cientista social, que deseje pensar a história e o cinema dentro de uma perspectiva histórico-dialética. Alguns desses conceitos dizem respeito ao enquadramento do filme enquanto documento historiográfico e como discurso sobre a história.. (NÓVOA, 2015)

               O mesmo autor,  Nóvoa (2015), ainda afirma que qualquer reflexão sobre a relação cinema-história toma como verdadeira a premissa de que todo filme é um documento, desde que corresponda a um vestígio de um acontecimento que teve existência no passado, seja ele imediato ou remoto. Apesar disso não seria suficiente para que um filme se tornasse um documento válido para a investigação historiográfica. Foi somente a partir da década de 1970 que o filme começou a ser visto como possível documento para investigação histórica. Isso se deu em consequência de um processo de reformulação do conceito e dos métodos da História, iniciado com o desenvolvimento daEscoladosAnnales,naFrança.(NÓVOA,2015)
              De acordo com Nova (1996), Foi particularmente com a história que o casamento do cinema parece ter se consolidado melhor. A historia enquanto processo produziu o cinema que reproduz o processo real (ainda que às vezes,  surrealisticamente). Esta memória passa a ser fonte de conhecimento sobre a vida, uma fonte inesgotável para o estudo de inúmeros aspectos do processo histórico.O filme, ficção ou realidade, é por conseguinte um documento histórico da maior importância.
              O fenômeno do cinema se transformou rapidamente em um excelente meio de dominar corações e mentes, criando e manipulando as evidências, elaborando uma realidade que quase nunca coincide objetivamente com o processo histórico que pretende traduzir. Assim, se não bastasse a importância do cinema-divertimento, do cinema-arte e, da mesma forma, do cinema-documentário como laboratório para investigação do historiador, é preciso examinar a fundo o cinema como veiculo de ideologias formadoras das grandes massas da população e que pode ser utilizado, com plena consciência de causa, como meio de propaganda.(NOVA, 1996)
 Sendo    assim   nada   é   acidental.   È   exatamente   esta   certezaque fazcom que“(...) historiadores dedicados aos períodos mais remotos (...) concedam uma importância extraordinária ao aparente mais insignificante vestígios da ação humana, produzindo muitas vezes uma historiografia quase hipotética, suposta por muitos irrealizável. (NOVA, 1996) Neste sentido, o historiador é também um artista e, na maioria das vezes, mesmo munido das mais ricas series documentais, ele é obrigado a utilizar também a imaginação pura para tentar reconstruir aspectos do passado.
Por exemplo o cotidiano de Atenas na sua mais remota antiguidade ou a vida dos Incas na era pré-colombiana poderiam ser exemplos de objetos difíceis de serem tratados historicamente sem uma grande dose de imaginação.Estudos específicos sobre cinema-história, sobre sua correlação e seu poder de abrangência vem sendo desenvolvidos, de modo mais sistemático, desde os anos 60, por centros de estudos estrangeiros. O mínimo que se pode deduzir desses estudos é que as películas cinematográficas demonstram, de modo incontestável, desde o início da história do cinema, a sua eficácia como instrumento formador de consciência  e a sua função como agente da história.(NOVA, 1996)

Entretanto, é também verdade que essas relações não ocorrem mecanicamente e possibilitam brechas por onde o olho mais objetivo do historiador e dos pesquisadores das humanidades, podem olhar. E se os setores hegemônicos das sociedades têm receio deste olho cientifico, o que torna mais explosivas as consequências  das suas iluminações e revelações sobre o passado e o presente, esses mesmos setores não podem prescindir de sua auto-imagem histórica. Precisam por tanto, do trabalho dos historiadores e cientistas sociais, dos filósofos, ideólogos e comunicadores e, por conseguinte, de construir e reconstruir permanentemente essa auto imagem para as telas, sobretudo, quando são exibidos documentários ou filmes de motivação histórica. (NOVA, 1996)

4 O FILME COMO DOCUMENTO PARA A INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA

As relações existentes entre a História e o cinema não são recentes, datam do surgimento deste há um século. Porém foi somente a partir da década de 1970, com a reformulação do conceito e dos métodos da História, iniciado com o desenvolvimento da Escola dos Annales (França), que o filme começou a ser visto como um possível documento para a investigação histórica.
A história está presente no cinema de diversas maneiras e pode ser abordada por vários ângulos.Em princípio, um filme produzido em qualquer época ou espaço é passível de ser utilizado como fonte de reflexão histórica.De forma genérica,os filmes se relacionam com a História através de produções que se remetem ao passado ou então os filmes produzidos em outras épocas, que podem se rutilizadas como objetos de investigação histórica.
Uma referênciaclássica no assunto é do historiador Marc Ferro, que entendia o cinema não na sua dimensão artística: “O filme, aqui, não está sendo considerado do ponto de vista semiológico. Também não se trata de estética (...) Ele está sendo observado não como uma obra de arte, mas sim como um produto, uma imagem-objeto” (FERRO, 1992, p. 87). Escrevendo na década de 1970, Marc Ferro considerava que o desprezo dos historiadores pelo cinema revelava uma fragilidade. Tal distanciamento ficava demonstrado no fato de que informações de natureza diversa daquelas presentes nos textos escritos, como risos, gestos, expressões, eram discursos tidos como subalternos e fúteis.
Ferro (1992) pensa no cinema, na televisão e nas imagens em geral a partir de um mesmo parâmetro analítico: como fontes históricas. Suas reflexões são refinadas e profundas, mas se limitam à compreensão do filme como um documento a ser analisado em busca da história. Dessa forma, o documento escrito é a base, que trás a ‘verdade’ sobre o passado, e a partir dele pode-se utilizar o filme como objeto de reflexão para a profundar tal conhecimento.
Existe um tipo de filme que possui uma importância suplementar para o historiador e sobretudo para o professor de História: aquele que possui como temática um fato histórico. Eles podem ser estudados pelo historiador de duas formas: primeiro, como testemunhos da época na qual foram produzidos e segundo, como representações do passado. Essa separação nos leva a classificar o caráter documental dos filmes em primário e secundário.(NOVA,1996)
Segundo esta autora, o filme pode ser utilizado como documento primário quando nele forem analisados os aspectos referentes à época em que foi produzido. E, como documento secundário, quando o enfoque é dado à sua representação do passado. Esse modelo segue, em linhas gerais, a classificação dada à documentação escrita pela historiografia tradicional.
De acordo com Nova (1996), pode-se afirmar que os "filmes históricos" são duplamente documentos e podem ser utilizados como tais a depender do enfoque dado pelo sujeito que o investiga. No entanto, os "filmes históricos" desempenham uma função documental limitada sobre o período que retratam, principalmente para a pesquisa, assim como também o fazem os documentos escritos secundários (como os textos que remontam ao passado).
Os "filmes históricos", ou seja, aqueles em que o seu enredo se reporta a épocas passadas (em relação ao período em que foi produzido, e não ao do espectador) são também documentos do período de sua produção. Esses filmes também são documentos secundários do fenômeno que abordam em seu enredo e, não obstante possuam uma utilidade limitada para o pesquisador (no que concerne ao seu interesse sobre o período retratado), eles podem se tornar muito importantes para o processo de ensino-aprendizagem da História. (NOVA,1996)
Essa diferenciação (entre documentos primários e secundários) levou historiador Marc Ferro a formular a definição das duas vias de leitura do cinema acessíveis ao historiador: a leitura histórica do filme e a leitura cinematográfica da história. A primeira corresponde à leitura do filme à luz do período em que foi produzido, ou seja, o filme lido através da história, e a segunda à leitura do filme enquanto discurso sobre o passado, isto é, a história lida através do cinema e, em particular, dos "filmes históricos". (FERRO,1992)
O cinema é um testemunho da sociedade que o produziu e, portanto, uma fonte documental para a ciência histórica por excelência. Nenhuma produção cinematográfica está livre dos condicionamentos sociais de sua época. Isso nos permite afirmar que todo filme é passível de ser utilizado enquanto documento. No entanto, para utilizar-se cientificamente de uma tal assertiva, requer-se cautela e cuidados especiais. A forma como o filme reflete a sociedade não é, em hipótese alguma, direta e jamais apresenta-se de maneira organizada, mesmo que assim o aparente. Por isso, é necessário que o pesquisador, ao tratar o filme como fonte documental, distancie-se da concepção mecanicista pela qual o reflexo social é abordado de forma direta. (NOVA,1996)
 Nova (1996) destaca que para o melhor aproveitamento do caráter documental do filme, é necessário que o pesquisador, o "analista", saiba dissecar os significados "ocultos" existentes na película. O método de investigação consiste, simplificadamente, em buscar os elementos da realidade através da ficção.O valor documental de cada filme está relacionado diretamente com o olhar e a perspectiva deste "analista". Um filme diz tanto quanto for questionado. São infinitas as possibilidades de leitura de cada filme. Algumas películas, por exemplo, podem ser muito úteis na reconstrução dos gestos, do vestuário, do vocabulário, da arquitetura e dos costumes da sua época, sobretudo aquelas em que o enredo é contemporâneo à sua produção.
Mas, para além da representação desses elementos audiovisuais, elas "espelham" a mentalidade da sociedade, incluindo a sua ideologia, através da presença de elementos dos quais, muitas vezes, nem mesmo têm consciência aqueles que produziram essas películas, constituindo-se, assim, como sentencia Ferro (1992), em "zonas ideológicas não-visíveis" da sociedade. Postula-se, assim, que um filme, seja ele qual for, sempre vai além do seu conteúdo, escapando mesmo a quem faz a filmagem.
Ao exercer influência sobre os olhares do público a respeito da História o cinema tem se tornado, nesse sentido, um agente que produz uma forma particular de conhecimento histórico. Segundo Nova ( 1996, p.6):

[...] o ‘filme histórico’, como detentor de um discurso sobre o passado, coincide com a História no que concerne à sua condiçãodiscursiva. Portanto, não é absurdo considerar que o cineasta, ao realizar um ‘filme histórico’, assume a posição de historiador, mesmo que não carregue consigo o rigor metodológico do trabalho historiográfico. [...] O grande público, hoje, tem mais acesso à História através das telas do que pela via da leitura e do ensino nas escolas secundárias. Essa é uma verdade incontestável no mundo contemporâneo, no qual, de mais a mais, a imagem domina as esferas do cotidiano do indivíduo urbano. E, em grande medida, esse fato se deve à existência e à popularização dos filmes ditos históricos.


Outra autora que trabalha neste mesmo viés interpretativo é Mônica Almeida Kornis. Em seu artigo Cinema e História: um debate metodológico há importantes contribuições  para o nosso entendimento do tema, pois segundo seu relato:

[na] abertura da história para novos campos, o filme adquiriu de fato o estatuto de fonte preciosa para a compreensão dos comportamentos, das visões de mundo, dos valores, das identidades e das ideologias de uma sociedade ou de um momento histórico. Os vários tipos de registro fílmico - ficção, documentário, cinejornal e atualidades vistos como  meio de representação da história, refletem contudo de forma particular sobre esses temas. Isto significa que o filme pode tornar-se um documento para a pesquisa histórica, na medida em que articula ao contexto histórico e social que o produziu um conjunto de elementos intrínsecos à própria expressão cinematográfica. Esta definição é o ponto de partida que permite retirar o filme do terreno das evidências: ele passa a ser visto como uma construção que, como tal, altera a realidade através de uma articulação entre a imagem, a palavra, o som e o movimento. Os vários elementos da confecção de um filme - a montagem, o enquadramento, os movimentos de câmera, a iluminação, a utilização ou não da cor – são elementos estéticos que formam a linguagem cinematográfica, conferindo-lhe um significado específico que transforma e interpreta aquilo que foi recortado do real. ( KORNIS, 1992, p.240) .


A autora lembra que “o reconhecimento do cinema como um novo objeto da análise histórica e sobretudo o esforço de examinar mais atentamente as questões inerentes à utilização dos documentos cinematográficos inseriu-se, [...] no campo de preocupações da Nova História francesa.”( KORNIS, 1992, p.243)
Na busca de uma metodologia para se trabalhar com o filme como fonte histórica a autora destaca:
Um primeiro aspecto é o reconhecimento de que, tratado como documento histórico, o filme requer a formulação de novas técnicas de análise que dêem conta de um conjunto de elementos que se interpõem entre a câmera e o evento filmado. As circunstâncias de produção, exibição e recepção envolveriam toda uma gama de variáveis importantes que deveriam ser consideradas numa análise do filme. Na base desta postura, evidentemente, está a recusa ao princípio de que a imagem é reflexo imediato do real, e que portanto ela traduz a verdade dos fatos. Um segundo aspecto comum é o reconhecimento de que todo filme é um objeto de análise  para o historiador. Com isso, não só os cinejornais e documentários, mas também os filmes de ficção, se tornam objeto de análise histórica, em última instância pelof ato de nenhum gênero fílmico encerrar a verdade, não importa que tipo de operação cinematográfica lhe deu origem. (KORNIS,1992, p.244).

Tal concepção do cinema como ferramenta para reconstituição histórica se configurou como fundamental  na  reflexão sobre as possibilidades de trabalho com filmes no ensino da História nas salas de aula.

5 O CINEMA NA SALA DE AULA

Não é de hoje o debate que destaca a necessidade das escolas e dos educadores seadequarem às novas demandas da sociedade contemporânea. O cinema é a primeira arte quese auto representa como imagem e representação da realidade, podendo contribuir de formadecisiva na interpretação e reelaboração do real. No entanto, não se trata apenas do uso docinema como ilustração de conteúdos históricos ou de análises críticas, e sim aprender apensá-lo como recurso didático com critérios e metodologia na direção do conhecimento e deuma práxis reflexiva. (MENDES,2014)
 Desta forma, é fundamental compreender a relação que se estabelece não sódo cinema na sala de aula e todas as implicações que isso carrega, como também apreendercomo o cinema utiliza a história como matéria prima nas produções do chamado gênerohistórico.
Segundo Mendes (2014), percebemos a dimensão educacional do cinema na medida em que esta arte se transformounum dos mais importantes recursos didáticos no ensino de História, principalmente após asdécadas de 1960 e 1970, com as mudanças tecnológicas, passando, na atualidade a serutilizado como instrumento de trabalho fundamental ao educador. O cinema é um elementoque suscita indagações, novas leituras, promove integrações, analisa e interpreta a realidade, eainda, como objeto de arte sensibiliza para novas experiências não vividas.
Partindo dessa premissa, os educandos devem ser levados a desenvolver suacapacidade crítica de inferências e interpretações acerca da sociedade do presente e dopassado. A  arte é um elemento fundamental no desenvolvimento do olhardo educando sobre si e sobre seu entorno, como nos aponta Junior (2009, p.21)

Por meio da arte, é possível desenvolver a percepção e a imaginação para apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada


 Napolitano (2010) relata que a reflexão sobre o uso do cinema como instrumentodo trabalho didático colabora e fornece material para a construção de novas práticas tãoessenciais para a renovação de nossas escolas. Assim, também é uma necessária contribuiçãoao campo historiográfico nacompreensão de como o cinema se apropria dos temas históricosna atualidade, as suas transformações e permanências, e como isso requer leituras sempreatualizadas por parte dos profissionais da História. Não é mais possível encarar o cinemaapenas como recurso auxiliar que demonstra ou ilustra o que foi trabalhado. O cinema é umelemento de trabalhopara suscitar indagaçõese auxiliar no processo investigativo próprio doensino de história.

Ao escolher um ou outro filme para incluir nas suas atividades escolares, o professor deve levar em conta o problema da adequação e da abordagem por meio de reflexão prévia sobre os seus objetivos gerais e específicos. Os valores que costumam influir no desenvolvimento e na adequação das atividades são: possibilidades técnicas e organizativas na exibição de um filme para a classe; articulação com o curriculo e/ ou conteudo discutido, com os conceitos discutidos; adequação a faixa etária e etapa específica da classe na relação ensino aprendizagem. (NAPOLITANO, 2010, p. 16)

De acordo com Mendes (2014), o cinema vem sendo frequentemente utilizado em sala de aula, mesmo fora dosgrandes centros urbanos. As condições de acesso, superação de alguns obstáculos crônicos naeducação brasileira e a diversificação e atualização na formação contínua dos professores têm contribuído para esseaumento desejável no uso dos filmes nas salas de aula. É algo positivoque auxilia os professores, propiciando aos alunos uma melhor compreensão do tema abordado. No caso da História, especificamente, aproxima o aluno do conteúdo trabalhado,sugere novas indagações, promove o debate através da relação passado/presente.

O cinema pode ser considerado "nova" linguagem centenária, pois apesar de haver completado cem anos em 1995 a escola o descobriu tardiamente. O que não significa que o cinema não foi pensado desde os seus primordios, como elemento educativo, sobre tudo em relação ás massas trabalhadoras. Trabalhar com o cinema em sala de aula é ajudar a escola a reencontrar a cultura ao mesmo tempo cotidiana e elevada, pois o cinema é o campo no qual  a estética, o lazer, a ideologia e os valores sociais mais amplos são sintetizados numa mesma obra de arte. (Napolitano, 2010, p 11 e 12)

Porém, é frequente  problemas quanto à utilização do cinema enquantorecurso didático. Problemas como a falta de preparo do professor que recorrentementeocasiona outro problema, a falta de percepção dos alunosque não veem a exibição do filmecomo parte do conteúdo estudado. É muito comum o filme ser utilizado em sala de aula comoum “tapa buracos”, reforçando a ideia do aluno de que aquela exibição não tem sentidoeducacional, pois se trata apenas de uma forma de “passar o tempo”, ou para ilustrar o queestá no livro, ou pior ainda,não tem sentido algum e está desvinculado dos estudos realizados. (MENDES, 2014)
Segundo o autor acima, sem orientação, preparo e direcionamento os alunos não estabelecem relações, nãoconstroem hipóteses e de desinteressam causando dispersão, o que normalmente é gerador deindisciplina. Assim, o desinteresse e o não cumprimento do objetivo é decorrência da falta deuma discussão ampliada sobre a utilização do cinema enquanto um instrumento didático deensino, sendo a preparação algo imperativo para os alunos compreenderem o porquê dautilização do filme e seus benefícios.
Os filmes colaboram na leitura da realidade e pode ser visto como fonte geradora deproblematizações e debates, sendo importante recurso para ensino desde que ligado aoplanode ensino e os objetivos propostos. O papel do professor é de ser o mediador entre aobra, o objetivo e o aluno, é ele o responsável por dar sentido e logicidade ao trabalho. Assim,o professor deve observar dois elementos essenciais: aarticulação do filme com o conteúdodiscutido e a adequação à faixa etária e etapa em que se encontra a turma. ( NAPOLITANO, 2010)
No ano de 1998 o Ministério da Educação divulgou os Parâmetros Curriculares Nacionais, que estabeleciam diretrizes para o ensino em todos os níveis da educação. Esse documento pode serentendido como uma fonte para estudo de concepções predominantes com relação ao ensino e aaprendizagem. Quanto à utilização de filmes no ensino de História, o texto oficial sentencia:

No caso de trabalho com filmes que abordam temas históricos é comum a preocupação do professor em verificar se a reconstituição das vestimentas é ou não precisa, se os cenários são ou não fiéis (...) um filme abordando temas históricos ou de ficção pode ser trabalhado como documento, se o professor tiver a consciência de que as informações extraídas estão mais diretamente ligadas à época em que a película foi produzida do que à época que retrata (...) Para evidenciar o quanto os filmes estão impregnados de valores da época com base na qual foram produzidos tornam-se valiosas as situações em que o professor escolhe dois ou três filmes que retratem um mesmo período históricos e com os alunos estabeleça relações e distinções, se possuem divergências ou concordâncias no tratamento do tema (...) Todo esforço do professor pode ser no sentido de mostrar que, à maneira do conhecimento histórico, o filme também é produzido, irradiando sentidos e verdade plurais (BRASIL, 1998, p.88).

Toda produção fílmica é conveniente para que o aluno possa perceber quetodo filme é uma possibilidade de representação, um recorte de uma realidadesocial, portanto,não está livre da ideologia e do contexto em que está inserido. Aí reside à riqueza dalinguagem cinematográfica como recurso, um instrumento inesgotável de debate, formação econstrução da criticidade.


6CONSIDERAÇÕES FINAIS

Desde primórdios as imagens têm acompanhado a humanidade. A partirde então, o homem tem registrado estas imagens através das pinturas rupestres, da iconografia,da fotografia, do cinema, dentre outros diversos meios, propiciados pelo avanço tecnológico.
Influenciados pelo positivismo do século XIX, os historiadores trabalharam por muito tempo com o uso de documentos escritos como única fonte para o desenvolvimento do conhecimento histórico. Além disso, os temas trabalhados eram, de forma geral, pouquíssimos, priorizava-se a história política e militar. O que tornou revolucionária a Escola dos Annales, movimento iniciado por Marc Bloch e Lucien Febvre em 1929, foi a forma como quebrou-se essa rigidez positivista e como ampliou-se consideravelmente as áreas estudadas, além, da forma como essas novas fontes viriam a ser trabalhadas.
 Somando-se à Escola dos Annales, chamada por Peter Burke de "A Revolução Francesa da Historiografia", os impressionantes avanços das tecnologias de comunicação no decorrer do século XX trouxeram para boa parte da população mundial uma imensa, e muitas vezes a principal, fonte de conhecimento. Toda essa gama de fatores e o contexto político e histórico atrelados resultaram em uma relação importante e extremamente proveitosa: o cinema como fonte de conhecimento histórico.
A partir dos anos 70, o cinema é definitivamente incorporado ao fazer histórico, sendo um dos grandes responsáveis por essa incorporação o historiador francês Marc Ferro.A aceitação do cinema como fonte histórica indica uma mudançade perfil do historiador na sociedade, assim como mostra a nova utilidadeque certas fontes passam a ter em função de sua nova missão.
 Se interpretado criticamente e sem abandonar as diversas outras fontes existentes, a análise de um simples filme nos leva a um universo completamente distinto. Paisagens, vidas de personagens, conflitos coletivos e individuais, dramas existenciais e políticos, são aspectos riquíssimos que a película nos traz. Seja como construção e interpretação de um passado, seja como testemunho ideológico do momento em que foi feito, o filme torna-se um documento histórico. O passado puro não pode ser reconstruído, mas visões dele devem ser analisadas. Não existe apenas uma verdade histórica.
 Atualmente os educadores utilizam o cinema como recurso didático. Noentanto, assim como a utilização do livro didático suscitou muitas indagações e estudos, ocinema como recurso também requer reelaborações e reformulações no seu uso e aplicação.Investigar e debater questões que permeiam a atuação do professor e os métodos aplicados nautilização de tal recurso pode auxiliar na resolução de problemas e evitar usos equivocados,além disso, pode contribuir com inovações e propostas.
Portanto, ensinar História a partir do cinema pode suscitar um novo olhar dos alunospara a história, estimular novas formas de análise e debate sobre a realidade passada e vivida, despertar a criticidade, elemento essencial do processo de ensino-aprendizagem. Para tal, não basta passar o filme, ele deve ser trabalhado de fato pelo professor. Muitos filmes contem sérios erros históricos, distorções, misturam fantasia com a realidade, são tendenciosos, elaborados para servir a um determinado interesse. Por isso filmes que são realizados como ferramenta política de manipulação, controle e propaganda ideológica devem ser tratados com atenção redobrada e trabalho pedagógico adequado.


REFERÊCIAS


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ANDRADE, Claudia Maria Mauad de Sousa.  Peles Fotográficas: uma reflexão sobre a fotografia sem câmera. 2014. Disponível em: <http://www.labhoi.uff.br/sites/default/files/peles_fotograficas_uma_reflexao_sobre_a_fotografia_sem_camera.pdf> Acesso em 07/04/2015.

BELÉM, Alexandre.  Eadweard Muybridge. 2011. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/sobre-imagens/historia/eadweard-muybridge/> Acesso em 07/04/2015.

BRASIL, Ministério da Educação e Cultura. PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais para a Educação Básica. Brasília: Imprensa Oficial, 1998.

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FERRO, Marc. Cinema e História.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992

JÚNIOR, Alberto Lucena Barbosa.  Arte da Animação – Técnica e estética através da História.  2005. Disponível em: <https://books.google.com.br/books> Acesso em 09/04/2015.

KORNIS, Mônica Almeida. Cinema e História: um debate metodológico. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 237-250.

MENDES, Lilian Marta Grisolio. O Ensino de História com Cinema: Problematização do uso da produção cinematográfica sobre o passado na sala de aula. 2014. Disponível em: <http://www.encontro2014.rj.anpuh.org> Acesso em 07/04/2015.

NAPOLITANO,  Marcos. Como usar o Cinema na sala de aula. 4.ed.São Paulo: Contexto, 2010.

NOVA, Cristiane.   O cinema e o conhecimento da História. 2014. Disponível em: <http://www.oolhodahistoria.ufba.br/o3cris.html> Acesso em 07/05/2015.

NÓVOA, Jorge.   Apologia da relação Cinema-História. 2015. Disponível em: <http://www.oolhodahistoria.ufba.br/01apolog.html> Acesso em 07/05/2015.
PESSANHA, Diomarcelo. Arte no Neolítico. 2010. Disponível em: <http://fmanha.com.br/blogs/imaginar/2010/10/15/arte-no-neolitico/> Acesso em 08/04/2015

SANTORO, André.O cinematógrafo dos Lumière.  2007. Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/cinematografo-lumiere-435113.shtml/>acesso em 09/04/2015.

TAFNER, Elisabeth Penzlien; SILVA, Everaldo da. Metodologia do Trabalho Científico. Indaial; Uniasselvi, 2011.

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“ O filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é História”


                                                                                                                                              Marc Ferro

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